Alicia Fernández:
"Aprendizagem também é uma questão de gênero"
Para a psicopedagoga argentina, as dificuldades da
criança em sala de aula têm relação com os papéis atribuídos a homens e
mulheres.
Uma questão
despertava a atenção da psicopedagoga argentina Alicia Fernández na década de
1980. A maioria dos casos relacionados a dificuldades escolares que chegavam ao
consultório dela se dava com meninos e não com meninas. Um estudo realizado
entre 1986 e 1989, com crianças e jovens menores de 14 anos, comprovou uma
observação: 70% deles eram do sexo masculino. A constatação de que o cenário se
repetia em outros países estimulou a investigação sobre o assunto. O resultado
está no livro A Mulher Escondida na Professora, que discute o papel feminino na Educação. Com 63 anos, a diretora da
Escola Psicopedagógica de Buenos Aires presta serviços de consultoria a instituições
de formação em seu país e também no Uruguai, em Portugal, na Espanha e no
Brasil. "Sinto que sou um pouco nômade", afirma. Atualmente, ela
desenvolve pesquisas sobre hiperatividade e déficit de atenção na infância,
problemas que cada vez mais são identificados, inclusive no Brasil.
Nesta entrevista,
concedida à NOVA ESCOLA no Uruguai, Alicia explica que esses distúrbios são
reflexos do comportamento da sociedade, permeado pelas questões de gênero, e
não algo que aparece de forma espontânea e isolada em cada um dos alunos.
Por que relacionar as questões de
gênero à aprendizagem?
ALICIA FERNÁNDEZ Percebi que a maioria das crianças que chegava para o atendimento psicopedagógico em meu consultório era de meninos. Achei que essa observação merecia uma pesquisa. Procurei estatísticas em outros países e constatei a mesma situação. Ainda hoje, de 75 a 80% dos pacientes encaminhados para o atendimento desse tipo são do sexo masculino.Para entender melhor a questão, comecei a analisar as famílias e percebi que em casa a figura feminina (mãe, avó, babá, irmã mais velha, tia etc.) era a responsável pelas primeiras descobertas dos pequenos.
ALICIA FERNÁNDEZ Percebi que a maioria das crianças que chegava para o atendimento psicopedagógico em meu consultório era de meninos. Achei que essa observação merecia uma pesquisa. Procurei estatísticas em outros países e constatei a mesma situação. Ainda hoje, de 75 a 80% dos pacientes encaminhados para o atendimento desse tipo são do sexo masculino.Para entender melhor a questão, comecei a analisar as famílias e percebi que em casa a figura feminina (mãe, avó, babá, irmã mais velha, tia etc.) era a responsável pelas primeiras descobertas dos pequenos.
Como a orientação feminina
interfere na aprendizagem dos meninos?
ALICIA Considerando que os humanos aprendem por identificação, é possível imaginar como é difícil para um garotinho ser ensinado por uma mulher a fazer xixi usando o vaso sanitário,por exemplo. Ela não é um modelo para ele porque não age da mesma maneira. Isso se repete na escola, onde a maioria é de professoras. Sempre queremos nos parecer com quem ensina e é por isso que para os meninos é mais complexo dar uma significação prazerosa ao conhecimento.
Como se explicam, então, os problemas escolares apresentados pelas meninas em sala de aula?
ALICIA Considerando que os humanos aprendem por identificação, é possível imaginar como é difícil para um garotinho ser ensinado por uma mulher a fazer xixi usando o vaso sanitário,por exemplo. Ela não é um modelo para ele porque não age da mesma maneira. Isso se repete na escola, onde a maioria é de professoras. Sempre queremos nos parecer com quem ensina e é por isso que para os meninos é mais complexo dar uma significação prazerosa ao conhecimento.
Como se explicam, então, os problemas escolares apresentados pelas meninas em sala de aula?
ALICIA Com as garotas, o caso é outro. As
dificuldades delas ficam escondidas porque o modelo que se tem de bom aluno é
aquele que não questiona, é quieto, obediente, passivo e caprichoso nas
atividades. Elas, em geral, reúnem essas características e, por isso, são
valorizadas. Esses critérios de avaliação são criados por mulheres, que não
consideram as questões de gênero presentes na sociedade. Se esse processo fosse
encabeçado por homens, a situação seria diferente porque eles levam em conta
outras coisas, como a espontaneidade e a ousadia.Porém o problema não se
resolveria se eles também não pensassem nessa dicotomia.
Quais as principais queixas
em relação aos estudantes encaminhados aos consultórios psicopedagógicos?
ALICIA Os meninos apresentam
hiperatividade e as meninas são diagnosticadas com distúrbios de atenção -
estão sempre dispersas e não se concentram. Ambos os casos levam à dificuldade
de aprendizagem e são considerados questões de gênero. Quando falamos de
crianças, o maior número de pacientes é do sexo masculino, mas a proporção se
equipara quando nos referimos aos adolescentes. Isso acontece porque eles, de
modo geral, questionam tudo e todos.É assim que constroem o seu pensamento. Se
a garota foi reprimida na infância, podem se manifestar durante sua
adolescência distúrbios como anorexia e bulimia. Ela não se permite comer para
se satisfazer ou come e sente necessidade de vomitar. É como se não tivesse
direito de se apropriar do alimento. Essa mesma lógica ocorre em relação ao
conhecimento.
Cabe ao professor desenvolver um
trabalho intencional sobre gêneros?
ALICIA Eu afirmaria que sim se não tivesse medo de isso se transformar numa técnica, ou seja, o educador falar sobre o assunto duas horas por semana e nada mais.O assunto é para ser trabalhado de maneira transversal, com constância, nas mais diferentes disciplinas.É preciso, por exemplo, corrigir alguns textos que se encontram nos livros de História, como: "Os egípcios moravam na beira do rio Nilo. Suas mulheres..." O texto não diz claramente que as mulheres são propriedade dos homens, mas sutilmente sugere que a palavra egípcios, no trecho, não se refere ao povo como um todo. Essas mensagens subliminares são profundas e perigosas, pois criam um modo de pensar. É necessário excluir isso das aulas.
ALICIA Eu afirmaria que sim se não tivesse medo de isso se transformar numa técnica, ou seja, o educador falar sobre o assunto duas horas por semana e nada mais.O assunto é para ser trabalhado de maneira transversal, com constância, nas mais diferentes disciplinas.É preciso, por exemplo, corrigir alguns textos que se encontram nos livros de História, como: "Os egípcios moravam na beira do rio Nilo. Suas mulheres..." O texto não diz claramente que as mulheres são propriedade dos homens, mas sutilmente sugere que a palavra egípcios, no trecho, não se refere ao povo como um todo. Essas mensagens subliminares são profundas e perigosas, pois criam um modo de pensar. É necessário excluir isso das aulas.
Cite outras situações de preconceito
em relação à mulher.
ALICIA Quando procuramos as palavras homem e mulher em dicionários espanhóis e brasileiros, encontramos embaixo da primeira a seguinte definição: "homem público, indivíduo que ocupa um alto cargo do Estado". Já mulher pública é definida como prostituta, meretriz. Isso está em publicações que, se supõe, falam de conceitos e não de mitos. A professora é uma pessoa pública, uma cientista, importante na vida da comunidade. Outro exemplo de problema relacionado ao gênero: as carreiras de caráter feminino demoram mais para serem reconhecidas. Isso acontece especificamente no Brasil com a Psicopedagogia, em que a maioria dos profissionais é mulher e - diferentemente do que ocorre na Argentina - ainda não é regulamentada.
Pesquisas indicam que muitos educadores atribuem dificuldades de aprendizagem dos alunos a uma condição social desfavorável.
ALICIA Não acredito nisso. Na Argentina, no sul da Patagônia, trabalhei com psicopedagogos e docentes numa comunidade indígena. Havia a idéia de que o povo que ali vivia não aprendia. Quando a história dessa comunidade começou a ser explorada, descobrimos que no passado os índios tinham muito conhecimento na área da saúde. Com isso, ficou claro que antes eles não aprendiam porque precisavam esconder suas origens e, assim, se adequarem aos nossos padrões. Alguns deles foram matriculados em escolas regulares argentinas e alcançaram notas altas nas avaliações, ficando entre os 10% com melhor desempenho dentro da capital federal. Esse exemplo comprova que se reconhecermos que, o outro é inteligente, independentemente
de raça, classe social e sexo, grande parte
das dificuldades deles desaparece.
ALICIA Quando procuramos as palavras homem e mulher em dicionários espanhóis e brasileiros, encontramos embaixo da primeira a seguinte definição: "homem público, indivíduo que ocupa um alto cargo do Estado". Já mulher pública é definida como prostituta, meretriz. Isso está em publicações que, se supõe, falam de conceitos e não de mitos. A professora é uma pessoa pública, uma cientista, importante na vida da comunidade. Outro exemplo de problema relacionado ao gênero: as carreiras de caráter feminino demoram mais para serem reconhecidas. Isso acontece especificamente no Brasil com a Psicopedagogia, em que a maioria dos profissionais é mulher e - diferentemente do que ocorre na Argentina - ainda não é regulamentada.
Pesquisas indicam que muitos educadores atribuem dificuldades de aprendizagem dos alunos a uma condição social desfavorável.
ALICIA Não acredito nisso. Na Argentina, no sul da Patagônia, trabalhei com psicopedagogos e docentes numa comunidade indígena. Havia a idéia de que o povo que ali vivia não aprendia. Quando a história dessa comunidade começou a ser explorada, descobrimos que no passado os índios tinham muito conhecimento na área da saúde. Com isso, ficou claro que antes eles não aprendiam porque precisavam esconder suas origens e, assim, se adequarem aos nossos padrões. Alguns deles foram matriculados em escolas regulares argentinas e alcançaram notas altas nas avaliações, ficando entre os 10% com melhor desempenho dentro da capital federal. Esse exemplo comprova que se reconhecermos que, o outro é inteligente, independentemente
de raça, classe social e sexo, grande parte
das dificuldades deles desaparece.
Como as questões de gênero
influenciam a profissão docente?
ALICIA Os sistemas educativos estão organizados conforme as sociedades patriarcais e, por isso, aspectos da singularidade dos gêneros são negados ou exibidos com excesso, quase como em uma caricatura.
ALICIA Os sistemas educativos estão organizados conforme as sociedades patriarcais e, por isso, aspectos da singularidade dos gêneros são negados ou exibidos com excesso, quase como em uma caricatura.
O que o homem deixa de
lado quando se dedica ao magistério?
ALICIA Às vezes, ele é o
único dentro de um grupo grande de mulheres. Por isso, pesa sobre ele a
responsabilidade do sexo masculino, ou seja, ele é visto como o grande pai.
Quando é preciso chamar a atenção de um aluno, delegam essa função a ele - que
não pode se constituir em um modelo de masculinidade como deseja. Não é
permitido ao professor, por exemplo, agir com ternura, criatividade e
sensibilidade. Se ele assume esse lado, vira motivo de chacota.
E a mulher, o que esconde?
ALICIA As próprias idéias. Ela não discute
opiniões e tem medo de publicar algo que escreveu. Não é à toa que 90% dos
docentes são do sexo feminino e a quantidade de livros publicados por homens é
muito maior.Na maioria dos países que pesquisei, cerca de 80% das publicações
desse tipo são de homens.
Como mudar essa situação?
ALICIA Para que as mulheres se autorizem em público, é
preciso que elas estejam dispostas a enfrentar quem não concorda com elas. Não
é fácil. É necessário tempo para que isso aconteça, pois elas foram preparadas
para estarem sempre sorridentes e submissas às imposições. Há trabalhos
extraordinários que as professoras fazem e que deveriam se tornar públicos.
Entretanto, elas não se animam a escrever suas experiências. Muitas dizem que
são a única a pensar de forma diferente na escola. Então, pergunto: "Você
já socializou suas idéias com colegas?" Geralmente a resposta é não.Nesse
momento, digo que é possível existirem mais duas ou três que compartilham as
mesmas opiniões e, juntas, elas poderiam ganhar força nesse questionamento.Por
outro lado, há mulheres que quando querem se impor carregam na caricatura do
sexo oposto. Elas são ouvidas, mas ficam com a imagem de agressivas e
violentas. Esse não é um bom modelo nem para os alunos nem para a sociedade.
Essa falta de autoria tem a ver com
as experiências na infância?
ALICIA Sim. A mulher que não se expõe é reflexo da menina que teve de esconder o que pensava, pois suas perguntas nunca eram consideradas apropriadas e as respostas sempre estavam incorretas. Com isso, deixou de questionar o mundo ao redor e passou a registrar tudo em um diário que ninguém pudesse ler. Essa é uma prática comum e exclusivamente feminina.Quando trabalho a psicopedagogia com adultas, proponho o resgate da garotinha que elas já foram um dia para que voltem a se permitir fazer perguntas, conhecer, descobrir e serem espontâneas. Defendo que nunca nos esqueçamos da criança e do adolescente que fomos no passado.
ALICIA Sim. A mulher que não se expõe é reflexo da menina que teve de esconder o que pensava, pois suas perguntas nunca eram consideradas apropriadas e as respostas sempre estavam incorretas. Com isso, deixou de questionar o mundo ao redor e passou a registrar tudo em um diário que ninguém pudesse ler. Essa é uma prática comum e exclusivamente feminina.Quando trabalho a psicopedagogia com adultas, proponho o resgate da garotinha que elas já foram um dia para que voltem a se permitir fazer perguntas, conhecer, descobrir e serem espontâneas. Defendo que nunca nos esqueçamos da criança e do adolescente que fomos no passado.
Como não minar o espírito infantil que há em cada aluno?
ALICIA Geralmente, na passagem da préescola para o 1o ano, parte das atividades comuns na Educação Infantil é deixada de lado para que se foque mais nos conteúdos escolares. Com isso, a mensagem passada é que a vida mudou e é necessário assumir afazeres mais importantes. Artistas, poetas, escritores e mesmo os cientistas - autores de grandes invenções para a humanidade - guardam a essência do brincar.Nenhum desses profissionais seria bem-sucedido se não tivesse viva a criança interior, que é questionadora. Os educadores podem ajudar a mudar muito a sociedade nesse sentido. Claro que é um trabalho demorado, mas é profundo porque ele está em contato com seres que são frágeis e aprendem por meio de referências.
ALICIA Geralmente, na passagem da préescola para o 1o ano, parte das atividades comuns na Educação Infantil é deixada de lado para que se foque mais nos conteúdos escolares. Com isso, a mensagem passada é que a vida mudou e é necessário assumir afazeres mais importantes. Artistas, poetas, escritores e mesmo os cientistas - autores de grandes invenções para a humanidade - guardam a essência do brincar.Nenhum desses profissionais seria bem-sucedido se não tivesse viva a criança interior, que é questionadora. Os educadores podem ajudar a mudar muito a sociedade nesse sentido. Claro que é um trabalho demorado, mas é profundo porque ele está em contato com seres que são frágeis e aprendem por meio de referências.
De que maneira um mestre pode se tornar um modelo?
ALICIA Sempre nos
lembramos daqueles que ensinavam com entusiasmo e dos que tinham senso de
humor.Nunca nos remetemos a eles como alguém que lecionava bem. Quando se
alfabetiza, por exemplo, se ensina o amor pela leitura e não só o ato de ler.
Se o aluno aprende apenas a técnica, não vira um bom leitor. Quando um mestre
desempenha sua função com esse grau de qualidade, deixa para trás qualquer
problema relacionado à questão de gênero.
Postado por: João Paulo da Silva Faria
Postado por: João Paulo da Silva Faria
BIBLIOGRAFIA
A Inteligência Aprisionada, Alicia Fernández, 264 págs., Ed. Artmed.
A Mulher Escondida na Professora, Alicia Fernández, 182 págs., Ed. Artmed. O Saber em Jogo, Alicia Fernández, 184 págs, Ed.Ar tmed.
Os Idiomas do Aprendente, Alicia Fernández, 224 págs, Ed. Artmed
Psicopedagogia em Psicodrama, Alicia Fernández, 208 págs., Ed. Vozes.
INTERNET
Acesse www.epsiba.com e leia em espanhol artigos de Alicia Fernández

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